segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Olhares

Desviaste o olhar de mim
Baixaste a cabeça.
Os olhos, poisados na ponta dos sapatos,
ou numa erva que assoma no meio do empedrado de calçada portuguesa.
O Inverno está a chegar ao fim.
Talvez o teu esteja a meio.
As minhas boas novas amarfanharam-te.
Sentiste-te triste. Por ti.
Reabriram-se-te feridas antigas.
E eu.
Com vergonha do  meu entusiasmo.
Baixei a cabeça e silenciei-me.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Volto aqui

Volto aqui de asas caídas.
Pálpebras pesadas que se arrastam no chão.
... lamacento.
Volto aqui para me aconchegar.
Aquele abraço que me envolve e me devolve a vida.
... em parte.
Volto aqui de alma em pedaços.
Sabendo que nunca dará para colar.
... talvez encostar os bocados.
Volto aqui... sempre

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

«... contava-me, por exemplo, que, era eu bebé, lhe doía a boca de me dar beijos. Entre tantas mulheres apenas ela me declarou isso. Deve ser tão bom doer a boca de beijar. ...» António Lobo Antunes - "Mãe"


Lembro-me na pele dos teu aconchegos.
Quero chegar-me de novo, mas não consigo.
Algo nos repele.
Pólos iguais, provavelmente.
Tristezas parecidas...
Colecionamos tristezas como duas maníacas.
E tratamo-las com cuidados acrescidos.
Aprisionamo-las a nós e já não sabemos viver de outra forma.
Pergunto-me se sabes disto.
Pergunto-me se sabes o segredo para fugir e se escolhes permanecer.
Pergunto-me...
E sigo triste.
Talvez um dia eu descubra o segredo.
Talvez um dia também eu permaneça.



sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Juntos

Vieram de fora.
Dos quatro cantos dos seus mundo.
Sentaram-se numa roda disforme.
Permaneceram.

Olhou para mim com pena.
Eu, um destroço de mim, permaneci imóvel.
Com pena de mim própria.
Saí. Em silêncio.

Abracei-te.
Encostei-te nos meus braços.
No fim estava enroscada em ti.
Fomos ficando.
Juntos.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Lágrimas

Que aconteceu?
Onde estava eu enquanto tu crescias assim?
Descuidei-me. Distrai-me.
E de repente. De um dia para o outro. Lá estavas tu.
Maior que eu.
E nesses mesmo dia fizeste as malas. Saíste de mim.
Ficou um vazio enorme aqui dentro. Sabias?
Não estava preparada.
Podias ter avisado!!!
Dado sinais.
...
Deste?
...
Isso? E esse também?
...
E eu que não percebi.
Admito. Desculpa-me.
Eu não quis perceber.
Eu não quis ver que estavas a mudar. A crescer.
A tornares-te em ti. Fora de mim.
Desculpa-me. Mas dói muito.
...
Sim. Eu vou saber viver com isso.
Voa descansada.
Mas permite-me que não me habitue.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Gerra II

Levanta-te.
Levanta-teeee.
LEVANTA-TE!
PEGA NA ARMA!
NÃO LIMPES A LAMA!
Caminha, caminha sempre.
Nem que seja em círculos.
Se páras morres.
Sou eu que te mato.
Eu, sangue do teu sangue. Eu que saí de dentro de ti.
Mato-te e passo-te por cima.
Sem pena
Sem sequer olhar para trás.
Limpo as botas no teu corpo inerte. Que me servirá de capacho.
E deixo esse teu corpo que um dia me acolheu a ser debicado por predadores. Até que apodreça.
LEVANTA-TE!
PEGA NA ARMA!
NÃO LIMPES A LAMA!

Guerra

Cansada da guerra.
Quero só sentar-me um pouco. Limpar a lama do corpo.
Quero poder ter tempo, para sobreviver.
O meu corpo não aguenta mais as balas.
Uma tristeza que me abafa, sufoca.
Seca-me a boca e a garganta.
Grito em vão. Canso-me ainda mais.
Sento-me enfim. Encostada a um muro.
Mas a guerra não pára.
Não se suspende por mim.
Por ninguém.
Tornou-se um vício.
Não se consegue parar.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

FACEBOOK

O "Mulheres Com Bigode" instalou-se no Facebook.
Muito moderno que está este blog.
Espreitem em: https://www.facebook.com/mulherescombigode
E... divirtam-se

Balas

Entraste. Rebentaste portões e muros. Partiste tudo.
Destruíste o acreditar.
Arrasaste o mundo... e o meu mundo.
Mas ele é tenaz, é forte.
E decidiu não morrer.
Floresce. A cada dia.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Talvez amanhã...

Ainda falta tanto para o fim do dia.
Ainda falta tanto para o fim da vida.
Eu eu sento-me em dia de desistências.
E ouço os apelos gritados de quem me ama.
E sinto-os num sussurro.
Amanhã!
Talvez amanhã seja mesmo outro dia.
Talvez amanha me reerga e volte a tentar.
Talvez amanhã...

domingo, 21 de setembro de 2014

Mulher invisível

Esta semana vou invisibilizar-me.
Uma palavra nova... mas o português é uma língua viva, sujeita a transmutações.
Um estar e um sentir muito antigos... de tempos dos quais nem eu tenho memória.Mas que estiveram lá.
E nós estivemos lá.

Esta semana passarei despercebida.
Ninguém me vai ver.
Deslizarei transformada em bruma.
Uma gota ou outra de um estranho orvalho marcarão o meu caminho.

Esta semana desistirei de tudo... até de mim.
Principalmente de mim.
Para me reencontrar um pouco mais à frente.
Mais sólida.
Mais eu...

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Livros...

"É tinta que sai da medula"




quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Silêncio

Cansei-me do som das palavras ôcas.
Emudeci.
Ensurdeci.
O ruído esmoreceu e foi desistindo.
Até se tornar num insistente murmúrio.
Até se silenciar.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Empurrões

Isso, empurrem-me! E agora pontapeteiem-me os rins.
E eu, com um fio de sangue a escorrer-me pelo canto da boca, os olhos raiados, levanto-me.
E falo.
E pavoneio-me como sempre. De cabeça erguida!!!
Vá, voltem a empurrar-me. A partir-me a alma em mil pedaços.
Que eu volto a levantar-me, a endireitar-me e a juntar os pedaços.
Sempre de cabeça erguida. Sempre a olhar em frete... nos olhos.

terça-feira, 3 de junho de 2014

Nós cantamos à mesa


Quando eu achava que os grandes desafios da minha vida estavam na carreira profissional que escolhi desde muito cedo, nasceram-me dois filhos, com 5 anos de diferença. E aí eu tive, pela primeira vez, a noção do que é ter responsabilidades e ter desafios enormes. Mas acima de tudo soube finalmente o que é amar de forma incondicional.

Amor como este não há outro. Amam-se os sorrisos, as gracinhas, as conquistas quase diárias. Amam-se as traquinices e os primeiros disparates, as birras, os choros. Posso até estar exausta, mas este amor está cá sempre. Aprendi o que é doer quando eles esfolam os joelhos e o que é sofrer quando o coleguinha da escola os trata mal ou o primeiro namorado desilude. E aprendi o que é estar lá sempre, para abraçar e ser abraçada.

Estar na vida dos meus dois filhos é o maior desafio da minha vida. É uma conquista ao minuto. Uma aprendizagem sem limites. O que eu já cresci nestes quase 14 anos que sou mãe!!!...

Se eu podia não ter tido filhos? Podia, até ponderei isso. Mas não seria de todo a mesma coisa.


Lá em casa somos muitos. Dois adultos com Síndroma de Peter Pan, duas crianças (mas chegam a ser quatro), duas gatas, uma cadela e uma micro horta. Como aguentamos? Com muito riso e muitos disparates saudáveis pelo meio das coisas que já por si são e têm de ser sérias. Ah… e lá em casa pode cantar-se à mesa.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

...

...
Entrei aos tropeções degraus abaixo. Sim. Ao contrário do que se pensa não se sobe para o céu. Desce-se. Uma escada em caracol onde a luz nos obriga a fechar os olhos. Não temos tamanho para ver logo o que nos espera. Não estamos preparados. Passamos demasiado tempo a vendar os olhos e a tolher a alma. Agora, vai ser preciso tempo.
...

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Interpretações

Os olhos poisaram-me naquelas letras, rascunhadas numa folha de papel que, de certeza, depois amarrotaste.
O peito apertou-se-me e chorei sem lágrimas. Parte desta manhã o ar custou muito a passar.
Levantei a cabeça, ganhei coragem e atirei-te um "olá".
Felizmente todas aquelas letras não passaram de um equívoco. Um erro de interpretação... poesia onde se espera matemática, quando trocas os números pelas letras.
Hoje percebi a real importância que tens na minha vida.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Sangue do nosso

Que bom que é virar as esquinas e descobrir sangue do nosso.
Com garra, com alegria.
E o que estará por de trás da esquina?
Mais sangue do nosso que se junta e mistura entre risos, recordações e aventuras.
E levamos todos atrás.
Novos e velhos.
Voltaremos sempre a rir juntos.

sexta-feira, 21 de março de 2014

...

Tinhamos sonhos, esperanças, vontades.
Achávamos que iamos mudar os mundos.
Cada um à sua maneira iamos derrubar muros, vencer gigantes e seguir em frente... vitóriosos.
Cada um à sua maneira se foi desiludindo e baixando os braços.
Cada um à sua maneira foi pondo os pés na terra e foi ficando.
Cansados.
Prostrados.
Vencidos.
Cada um à sua maneira.

Que...

Que insatisfação desmedida que me tolhe os movimentos.
Que me fecha o rosto numa sisudez de olhos suspensos... em nada.
Que me quarta a alegria e o riso solto.
Que me desespera.

Que loucura esta que me angustia e me sobressalta o sono.
Que me tira as ganas de correr.
Que me faz pousar os braços da luta.
Que me desespera.

Que tristeza imensa que me doi por dentro e me arranha as entranhas.
Que me empurra para um desassossego vadio.
Que me amarra o corpo e a alma... deixando a cabeça à solta.
Que me desespera.